Por Marina Roveda
O retorno ao trabalho após a licença-maternidade é um momento que traz consigo uma série de desafios, especialmente quando se trata de manter a amamentação. De acordo com dados do Ministério da Saúde, as mulheres que exercem atividades profissionais fora de casa encontram dificuldades significativas para seguir com o aleitamento materno nos meses iniciais de vida do bebê. Contudo, com a orientação correta, é possível ajustar a rotina, armazenar o leite materno de forma segura e garantir que os benefícios da amamentação sejam mantidos mesmo após o início das atividades laborais.
Para a enfermeira obstetra do Hospital Madrecor, Miriam de Souza Santos Silva, o término da licença-maternidade não precisa ser um obstáculo para a amamentação. “O retorno ao trabalho pode ser um desafio emocional, e a nova rotina pode impactar a amamentação, principalmente se a mãe fica muitas horas sem amamentar ou extrair o leite. O essencial é manter o estímulo das mamas e buscar apoio”, ressalta.
Miriam sugere que as mães comecem a se preparar cerca de 15 dias antes de voltar ao trabalho, iniciando a extração e o armazenamento do leite. “Essa orientação é uma recomendação do Ministério da Saúde e faz parte das diretrizes para a manutenção do aleitamento materno após o retorno ao trabalho”, explica.
Em sintonia com o “Agosto Dourado”, mês que promove a conscientização sobre a amamentação, a especialista enfatiza que o planejamento é um grande aliado neste período. “Não é necessário criar um grande estoque de leite. O mais importante é aprender a ordenhar, armazenar corretamente e estabelecer uma rotina confortável”, orienta. Miriam aconselha que as mães tirem todas as suas dúvidas com seus médicos e enfermeiras para que possam se sentir seguras nessa fase.
Integração da ordenha na rotina
Durante o horário de trabalho, realizar a ordenha é fundamental para manter a produção de leite. Existem opções de bombas manuais e elétricas, mas a enfermeira recomenda a ordenha manual como a mais acessível e prática.
Ela destaca a importância do suporte já no ambiente hospitalar. “No Madrecor, as mães recebem assistência da equipe logo após o parto. As enfermeiras ajudam a colocar o recém-nascido no seio e, durante a internação, o setor de lactário ensina a ordenhar, seja manualmente ou com bomba elétrica, além de esclarecer dúvidas”, explica.
A frequência de extração do leite varia para cada mãe, dependendo do tempo que ela ficará longe do bebê e de suas necessidades pessoais. “A produção de leite está diretamente relacionada ao estímulo. Quanto mais o bebê ou a ordenha esvazia as mamas, maior será a produção”, complementa a enfermeira.
É importante que a mãe organize momentos para a ordenha durante o expediente, sempre considerando as condições que a empresa oferece. O Ministério da Saúde recomenda que as trabalhadoras se informem sobre as facilidades disponíveis para a retirada e armazenamento do leite, como as salas de apoio à amamentação, que proporcionam um espaço adequado e reservado.
Cuidados com o armazenamento
Quando armazenado em casa, o leite materno cru pode ficar até 12 horas na geladeira e até 15 dias no congelador. É essencial que o recipiente tenha a data e hora da coleta e seja mantido na parte mais fria da geladeira.
Miriam ressalta a importância da escolha e higienização do recipiente. “Um frasco de vidro com boca larga e tampa plástica que feche bem é uma opção recomendada. Deve ser fervido por 15 minutos e deixado para secar naturalmente, com a boca para baixo em uma superfície limpa”, orienta.
No trabalho, o leite extraído deve ser refrigerado. Ao final do expediente, a mamãe pode transportá-lo em uma caixa térmica com gelo e, ao chegar em casa, guardar imediatamente na geladeira ou freezer, conforme o planejamento.
Aquecer com cautela
Quando for oferecer o leite ao bebê, é importante descongelá-lo na geladeira e aquecê-lo em banho-maria, evitando o micro-ondas, que pode aquecer de forma desigual e comprometer os nutrientes. “Após aquecer, movimente suavemente o recipiente para misturar a gordura que pode ter se separado”, recomenda a enfermeira.
Ela também sugere evitar mamadeiras e chupetas, que podem interferir na amamentação. Como alternativa, pode-se usar copinhos, que estão disponíveis em farmácias.
A importância do apoio emocional
Além das questões técnicas, o retorno ao trabalho é uma fase que envolve mudanças emocionais e na rotina. A ansiedade e o estresse podem interferir na extração do leite, mas isso não significa que a mãe não consiga amamentar.
“O retorno pode ser desafiador emocionalmente. O mais importante é manter o estímulo das mamas e buscar apoio”, reafirma Miriam.
Para ela, acolhimento e informação são essenciais para que a amamentação não se torne uma fonte de pressão para a mulher. “Cada mãe e bebê têm realidades distintas. Não devemos transformar a amamentação em uma prova de desempenho, mas sim oferecer suporte e informações que ajudem a mãe a fazer o melhor dentro de suas possibilidades”, destaca.
O papel das empresas
A continuidade da amamentação após o retorno ao trabalho não é responsabilidade apenas da mãe. O ambiente profissional pode ser um aliado crucial, oferecendo condições que permitam a ordenha em um espaço privado e confortável. “É fundamental que as empresas respeitem a ordenha como uma necessidade de saúde e não como um privilégio. Um ambiente adequado, limpo e reservado, além de um bom suporte para armazenamento do leite, são essenciais. Os colegas também devem contribuir, criando uma cultura de respeito”, enfatiza a especialista.
A legislação brasileira garante a proteção da mulher que amamenta. O artigo 396 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece que até os seis meses do bebê, a trabalhadora tem direito a dois intervalos de meia hora durante a jornada para amamentação, com horários acordados entre empregada e empregador.
Miriam aponta que o “Agosto Dourado” é uma oportunidade para discutir as condições necessárias para que a mulher consiga amamentar. “Com conhecimento, planejamento e uma rede de apoio, muitas mães conseguem equilibrar trabalho e aleitamento. Amamentar é uma responsabilidade compartilhada entre mãe, família, profissionais de saúde, sociedade e ambiente de trabalho. Informação é transformadora. Apoio é fortalecedor. Uma mãe acolhida tem muito mais chances de seguir sua jornada com segurança”, conclui.
Sobre a Hapvida
Com mais de 80 anos de atuação, a Hapvida se destaca como a maior empresa de saúde integrada da América Latina. Com uma equipe de mais de 77 mil colaboradores, a companhia atende cerca de 16 milhões de beneficiários de saúde e odontologia em todas as regiões do Brasil.
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